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Se algum dia você
pensar em adquirir um carro antigo e ele estiver com a aparência de ferro
velho imprestável, não desanime. Existem em São Paulo algumas oficinas
especializadas, verdadeiras máquinas do tempo, que se encarregarão de
transformá-lo em obra digna de museu. Para isso, além de paciência, é
necessário ter muito dinheiro. Antes de mais nada esqueça o verbo
reformar. Um veículo antigo deve ser restaurado por mão-de-obra
capacitada em devolver-lhe a originalidade.
''Não importam as condições em que o carro
chega até aqui, nós o entregamos como ele era, o mais próximo possível
de suas características originais de fábrica'', afirma Fernando Rossi,
41, proprietário da Magneto Restaurações, uma das maiores oficinas
especializadas em carros antigos de São Paulo. Lá são restaurados
quaisquer tipo de veículos, nacionais ou estrangeiros, mas nos seus quase
dez anos de existência, a oficina voltou-se principalmente para os
chamados carros clássicos, fabricados até a década de 30.
Na Magneto hoje preciosidades sendo restauradas,
como um Rolls-Royce 1921, que ainda mantém as garrafas de cristal para
bebidas e os frascos de perfume originais, além de quatro Isotta
Fraschini, todas da década de 20. Contando com essas quatro, há apenas
seis em todo o Brasil, o que dá uma idéia da raridade desses
modelos e da conseqüente responsabilidade dos funcionários que
trabalharão sobre essas verdadeiras representações materiais da
história da motorização.

O Mercury de 1957. estilo
"Rabo de peixe"recebe os últimos reparos mecânicos
na Agromotor depois de ter seu painel estofado e reconstituído no
espírito
fiel das linhas que marcaram a década de 50
Preço
elevado
Esta super-especialização pode ser explicada pelo preço da
restauração. Os proprietários levam para a oficina um carro que mereça
os Cz$ 200,00 hora/homem cobrado pela Magneto e pelas demais oficinas no
gênero. O pagamento é quinzenal mas o carro pode permanecer de seis
meses a dois anos no processo de restauração.
Como explica Rafael Lebre, 38, um dos
proprietários da Garage Voisin, outra oficina que só trabalha com
veículos clássicos, '' a restauração pode ficar bem mais cara do que o
preço pago pelo veículo, em alguns casos, dependendo do estado do carro,
ela pode superar em três vezes o preço da compra ''. Mesmo assim, os
proprietários dessas oficinas dizem que o trabalho não é muito
lucrativo. Assim como os donos dos carros, eles se consideram idealistas
por realizar um serviço artesanal, e afirmam que pagam salários acima da
média do mercado.
O processo de restauração é o mesmo para
todos os veículos antigos. O carro é desmontado e as diversas partes
são agrupadas pelas suas especificações: funilaria, bancos e
estofamento, parte elétrica e mecânica. Em todos os casos as oficinas
utilizam ferramental da época ou até fabricam ferramentas especiais.
Para conseguir uma perfeição de fábrica no veículo, as oficinas dispõem
de bibliotecas repletas de livros que contam as história das indústrias,
catálogos que de cor de tapeçaria e manuais de oficina da
época, material que é usado como referência para se chegar ao formato
correto de um detalhe, obter uma pintura fiel ao modelo original etc. É a
partir dessa pesquisa que os restauradores desenham as peças e a lataria
e chegam até a realizar moldes em gesso ou fibra de vidro para ter uma
idéia precisa dos diversos componentes, antes da montagem.
Nos carros clássicos, - como um Chrysler
Royal Cabriolet de 33, por exemplo - a estrutura da carroceria é toda de
madeira, revestida com chapas de metal aparafusadas ou rebitadas. A
madeira, na grande maioria dos casos, é fortemente atacada pelo cupim e
no metal, como é hoje, o problema é a ferrugem. Para um ângulo
perfeito, as duas partes são refeitas em conjunto e depois
montadas.
Os defeitos do motor exigem esforços mais
complexos, uma vez que as peças não são fabricadas no Brasil. Muita
coisa é refeita nas próprias oficinas, mas outras peças que necessitam
de tornos de alta precisão, como anéis, pistão, bielas e engrenagens de
câmbios, por exemplo, são recomendadas nas firmas especializadas.
No exterior, muitas dessas peças ainda
são fabricadas mas poucas oficinas optam pela importação. '';Chegamos a
importar válvulas da Inglaterra para nossos carros, que lá custam o
equivalente a 12 dólares cada uma, para trazê-las para cá; com os
elevados custos de importação, o preço triplicou'', diz Richard Slynn,
38, da ReE Restaurações, oficina que se especializou em carros ingleses
e recentemente restaurou um MG modelo TC de 1948, propriedade do publicitário
Mauro Salles.
Já Luís Francisco
Baptista, 47 , dono das oficinas Agromotor,
prefere refazer do que importar. Além dos dez anos de experiência nesse
trabalho, ajudou na opção o fato de ele ter dirigido seu serviço para
carros das décadas de 40 a 60, principalmente da linha Ford, como os
Mercurys, Thunderbirds e Mustangs, que têm peças mais fáceis de serem
conseguidas.
Mas no caso dos pneus todos são unânimes
: só comprando no exterior. E alguns componentes simplesmente não
existem mais, como as colméias celulares do radiador. Há ainda alguns
serviços que são executados por firmas especializadas ( leia texto
abaixo), como cromação dos pára-choques e maçanetas e também o corte
especiais dos vidros. |