É ele quem conta:
- Desde menino, eu tenho paixão por carros. Acho mesmo
que a maior invenção do homem neste século foi o automóvel. Ele dá
uma sensação de liberdade, de poder. O carro completa a família. Foi em
1957, quando cheguei à capital, vindo de São
Simão, que conheci
pessoalmente , aos 18 anos, o Ford Thunderbird. Antes disso, só em
revistas. O amor aumentou e a partir desse momento acalentei o sonho de
possuir aquele automóvel. Mas na época era muito caro e eu estava
começando a fazer a vida.
''Na
primeira vez que te vi
Cobiça, mil
desejos senti.
Entre luzes
brilhava
E eu, de
longe, te fitava.
A
separar-nos, grave barreira:
Eu, jovem ,
em início de carreira
E tu,
requintada, predestinada
À classe
privilegiada''
- Em 1958, comprei um Studbacker 51, motor
V-8, importado. Naquela época era fácil comprar e manter um carro
importado. A gasolina custava três vezes menos que uma água mineral e
ninguém levava o carro no mecânico para resolver problemas de
consumo.
Assim o tempo passou, Paulo Américo
formou-se, fez a vida, casou-se, mas o velho sonho não morreu.
''Tantas, tantas vezes te
vi,
A rodar, orgulhosa, por
aí,
Sendo usada,
castigada,
Maltratada, na rua, na
estrada
E isto, quanto mais
acontecia,
Tanto e muito mais te
queria!''.
Ele
continuou amando os automóveis, e muitos passaram por suas mãos, até
que finalmente, em 1970, ele conseguiu realizar aquele sonho antigo:
encontrou o velho Ford Thunderbird 1957 e o amor ressurgiu.
Comprou-o por 15 mil cruzeiros, um preço alto,
pois, segundo ele, naquela época com esse dinheiro se podia comprar um
carro bem mais novo. Mas ele o compraria por qualquer preço. Hoje o carro
faz parte da família, tanto que a sala de jantar de sua casa foi demolida
para dar lugar a uma garagem para o velho Thunderbird.
''Um dia te encontrei largada,
Sem saias, abandonada,
Em um lugar índigo daquele dia
Em que entre luzes reluzias.
Do novo contacto,
Ressurgiu o amor-impacto:
Apanhei-te para morar comigo
E curtir o amor antigo''.
- É um
modelo, 1957, com dois lugares, motor V-8 292, que equivale aos antigos
Galaxie, 200HP, câmbio com três marchas, direção hidráulica, banco
inteiriço com três movimentos, carburador quádruplo, rádio original
com sintonia automática, três capotas. Um, rígida, de fibra de vidro
removível; outra lona conversível, que fica guardada atrás do banco; e
a terceira, chamada marítima, para a cobertura e proteção dos
passageiros.
Ele usou esse carro regularmente por quatro
anos. Era o segundo carro da família. Viajou para o Rio de Janeiro,
Curitiba e Ribeirão Preto.
É um caro de máquina muito eficiente, com
consumo idêntico ao do Galaxie,mas com desempenho de carro esportivo. Tem
muita aceleração e muito torque, explicou ele.
A partir de 1974, o carro deixou de ser
usado e ficou à espera de uma restauração, que veio em 1977:
''Com
trato, restaurei tuas formas,
Com trato, recuperei, tuas forças.
Olvidei o passado inconseqüente
E dei-te sais novamente''!
E
essa restauração tem uma história que merece ser contada:
-Quem restaurou o carro foi o Batista, hoje
proprietário da Agromotor, um engenheiro que trocou essa profissão
pela de mecânico de automóveis. Ele foi muito cuidadoso e o carro ficou
perfeito, nada deixando a desejar a um modelo zero quilômetro.
Mas para chegar a essa perfeição, foi
preciso muita paciência, muito tempo e ... muito dinheiro. Paulo Américo
comprou, para essa reforma, mais dois Ford Thundrbird, um 5 e outro 57,
para usar apenas peças verdadeiramente originais. O rádio, por exemplo,
foi retirado do modelo 55. Tudo foi feito com o maior capricho. Até a
cor, que na época da compra era verde, voltou para a original, branca. Os
pneus, raríssimos, foram comprados na Zacharias, que dispunha das
últimas cinco unidades.
É por isso que Paulo Américo conta com orgulho
que seu carro ganhou em 1977, na exposição do Veteram Car Club, no
debut, o primeiro lugar na categoria. Em 1979, quando a Ford, comemorando
50 anos de Brasil, organizou uma festa para carros antigos, o seu carro
também ficou em primeiro lugar como exemplar representativo da década de
50. Em 1983, a Ford levou seu Thunderbird para a festa de lançamento do
Escort no Rio de janeiro.
Em 1979, Paulo Américo participou de uma
competição oficial, promovida pelo clube do Jaguar. Foi o Quilômetro
Aceleração de Interlagos. Em sua bateria estavam um Jaguar XK 150 e duas
Corvette. Adivinhem! O seu Thundrbird chegou em primeiro lugar.
É por tudo isso que hoje em dia o carro é o
xodó da família.
''Para
ti, trovas são provas
De amor,
Minha Thunder``57!''.
-Desde
que foi restaurada, somente um dia ela tomou chuva. Nós tomamos o maior
cuidado para sua conservação. Todo sábado, sem exceção, ela é
encerada. E a família toda ajuda.